12 de nov. de 2010
A vida continua.. diferente...
2 de ago. de 2010
Embora os índios já estivessem (LAMENTAVELMENTE!) influenciados pela nossa cultura, catequizados, vestidos, ansiosos, medicados com nossos remédios, comendo nossa comida, estudando nossa língua etc., ainda viviam fortemente seus costumes e tradições.
Para além de todas as festas, danças, ritos, caças, plantios, iniciações que eu vi, duas coisas me marcaram de maneira muito intensa. A primeira delas foi saber que os meninos, ao entrarem na adolescência, saíam da casa dos pais e iam morar juntos numa casa especial na aldeia. Ali tinham que administrar suas vidas sozinhos e cuidar de tudo da maneira que achassem melhor e do melhor jeito possível.
Não é preciso dizer o quanto isso calou fundo em mim e por quanto tempo não sonhei com uma casa dessas na cidade! Nada me parecia mais adequado do que ter essa oportunidade, ser preparado para ela como uma passagem para um outro momento de mais responsabilidades, ser cuidadosamente amparado pelo grupo para que sua vida possa prosseguir. Indescritível como respeitei aquelas pessoas e sua sabedoria depois que descobri isso.
Outro forte aprendizado que tive por lá e que fala comigo até hoje não surgiu de uma vez só, não o encontrei andando pela aldeia ou porque alguém tivesse me apresentado ou me contado algo. Este foi-se construindo aos poucos. Demorei muito a entendê-lo. Via, mas não sabia o que era.

O fato é que à noite saíamos, eu e meus três amigos, andando sob a luz de um luar indescritível ou simplesmente das estrelas que, juro, eram tantas, que iluminavam facilmente todo aquele planalto, e sempre encontrávamos uma fogueirinha e vários índios mais velhos em volta dela. A aldeia dormia. Tudo em silêncio. Os únicos sons naqueles momentos vinham dali: o estalar do fogo e o vozerio dos velhos. Eles falavam a língua deles e não entendíamos nada. Eles não se preocupavam conosco. Talvez nem nos vissem, tão entretidos estavam em sua conversa. Deixavam que ficássemos por ali, e nós observávamos extasiados. Várias vezes senti que aquela roda, o fogo, a fala que circulava em volta do fogo me levavam para um outro tipo de consciência do mundo. Noite após noite voltei àquela rodinha tentando entender o que aqueles homens faziam ali. Às vezes tinha a impressão de que eles falavam todos juntos, de que não se ouviam. Tentava entender, pelo tom da fala, sobre o que falavam. Não pareciam discutir problemas, não estavam brigando, não pareciam felizes nem infelizes, não estavam preocupados nem despreocupados, não conversavam futilidades nem traçavam planos de guerra. Concentrados, iam colocando suas palavras na roda, apresentando-as ao fogo talvez. Dirigiam sua fala ao centro e a todos. Era muito misterioso tudo aquilo para mim.
Um dia quando o sol começava a nascer tive um lampejo de que aqueles homens produziam à noite a harmonia para a vida do grupo de dia. Foi um pensamento assim, bem simples. Só isso. Tive uma sensação muito forte de que aquela era a base e a sustentação de toda a vida deles.
Voltei à roda mais algumas vezes até o final da nossa estada lá e cada vez isso fazia mais sentido pra mim e se encaixava mais naquilo que eu via.
Eles se ouviam sim e como se ouviam. Nunca estavam exaltados, nem ansiosos, nem preocupados, nem temerosos. Também não estavam exultantes, excitados ou eufóricos. Simplesmente iam até ali e todas as noites falavam de coisas, da maneira como cada um via essas coisas. Pouco importava o ponto de vista de cada um e, ao mesmo tempo, importava muito o ponto de vista de cada um. Era um ponto de vista individual, mas era do grupo. Não pertencia a ninguém, havia sido dado como uma possibilidade individual pelo próprio grupo, pelo próprio coletivo, pois que cada um daqueles velhos naquela roda tinha possibilidade de falar do seu ponto de vista pelo lugar que ocupava no grupo. Então, sua fala tinha nascido do grupo e naqueles momentos voltava para ele.
Se às vezes as falas se sobrepunham era porque eles já tinham uma habilidade superior de se ouvir e, com certeza, nada escapava. Também acho que era porque se ouviam com outros canais, não com a mente racional, que tem que captar, apreender, organizar e reorganizar todos os dados, checar e reformular e arquivar em locais lógicos. Aqueles homens se ouviam por todos os poros.
Penso que também pouco importava para onde ia individualmente o que falavam ali. Aquilo tudo ia para o grupo como um todo. Para o grupo de velhos em volta da fogueira e para os mais jovens , mulheres e crianças que dormiam nas ocas naquele momento. Ninguém formulava opiniões ali nem se prendia a opiniões que formulava. Isso não tinha função nem lugar naquela roda. Estavam em silêncio internamente enquanto falavam.
E as respostas, quando eventualmente precisavam que alguma resposta se formasse - para uma tomada de decisão, um encaminhamento novo, a solução de algum problema na aldeia - essas respostas se formavam na alma do grupo. Assim, bem simples. Algo como uma soma de todos aqueles pontos de vista, mas que, ao mesmo tempo, não tinha nada a ver com uma soma de pontos de vista. Algo que incluía todos, que atendia a cada um na mais autêntica necessidade de cada um – mesmo que fosse pra repreender ou expulsar alguém, essa pessoa estava totalmente incluída naquela fala e por ela chegavam de maneira mais verdadeira possível.
Era surpreendente tudo aquilo! Ainda hoje tento entender como acontecia. Então, uma palavra sempre me vêem à cabeça nesses momentos: verdade. Aquela fala em torno do fogo era desprendida, honesta, sincera e absolutamente verdadeira. Ninguém manipulava, escondia ou mentia ou deixava que opiniões ou interesses pessoais conduzisse suas falas. As coisas eram ditas com clareza e sem ambigüidade. De que outra maneira um diálogo real pode acontecer senão com base em muita sinceridade e verdade? Fale-se o que se quiser falar por aí, construam as teorias que for sobre comunicação e relações humanas, aqueles homens me deram de presente o melhor ensinamento sobre isso. Como construir ou estabelecer uma relação real com os outros? Com tanta verdade, que pode parecer uma postura quase ingênua, mas que, de fato, é a maior sabedoria que pode haver.
Acho que depois disso nunca me arrependi dos momentos em que consegui achar essa verdade. É muito triste ver que a falta dela destrói a confiança e faz com que os caminhos se fechem para todos os que estão envolvidos em uma situação! Que as fogueiras possam se acender e nossos velhos índios (aqueles que moram dentro de nós) possam falar! Mas que, principalmente, tenhamos possibilidade de ouvi-los! Ou então todo o esforço terá sido em vão...
26 de jul. de 2010
Mais pensamentos que aprisionam... OU... De um mínimo de consciência que liberta
Pode-se ver uma multidão de mortos "who are waiting to be saved", como o restante da letra quer indicar, mas sempre penso em pessoas livres, que habitam corpos, mas de uma forma desprendida, sem ditaduras de nenhuma ordem - políticas, sociais, fisiológicas ou psicológicas.
Aquecimento global é um desses discursos cansativamente massacrantes. Impõe um sentimento de culpa e um fatalismo absurdo. Interrompe as conversas, pois tudo já foi dito a respeito e não adianta se repetir mais. Quanto mais se fala disso, mais forte fica a teia na qual nos aprisionamos e com a qual caminhamos para o fim da nossa civilização numa grande catástrofe global. Muito triste. Repetimos sem questionar a nossa sentença de morte.
Mas será que de fato ela foi decretada e existe???
9 de jul. de 2010
Pensamentos que aprisionam
Quando uma situação não se fecha satisfatoriamente, produz tensão, a gente sabe... A falta de sentido e a dor produzida deixam algo em suspenso. A situação será repetida, às vezes exaustivamente, para se tentar fechar a gestalt incompleta. Os mesmos elementos serão reunidos, a pessoa estará de frente para o mesmo quadro e mais uma vez tentará entendê-lo - na verdade, tentará vivê-lo de um modo diferente.
5 de jul. de 2010
“A reação natural do nosso desejo ante uma coisa bela é pervertida pelo pensamento”
Quando vemos uma flor abrindo suas cores fantásticas sob a luz da manhã ou num fim de tarde ou quando observamos a água do rio percorrendo seu caminho refletindo os raios de sol, isso nos invade e proporciona sensações muito agradáveis. Podemos nos deixar ficar nessa experiência e sermos permeados por ela.
O que destrói a felicidade proporcionada por momentos como esses é que o pensamento converte em memória a experiência vivida e passamos a pensar repetidamente no que se foi.
Nossa reação natural ante uma coisa bela é pervertida pelo pensamento. Então, perdemos a liberdade.
O pensamento e a memória são necessários em muitos âmbitos da vida, mas aqui não deveriam ter lugar ou, pelo menos, não o lugar que tem.
Tudo o que é resultado da memória é velho. Nossos conhecimentos são velhos, nossa valiosa “experiência de vida” é velha. Embora necessários, precisam ser colocados em seu devido lugar.
“O pensamento, que é velho, torna também velho aquilo que olhastes com deleite e que por um momento sentistes profundamente.”
É do velho que vem o prazer, conclui Krishnamurti - distinguindo o prazer que tanto ansiamos da experiência de alegria e deleite que temos num determinado momento. O prazer nunca vem do novo, porque no novo não existe o tempo e, portanto, não há a exigência da repetição, não há a luta para perpetuar o que está sendo ou o que já se foi, não há o medo da perda, não há ânsia nem raiva nem violência. Assim, também não há desapontamento nem dor.
As coisas são por natureza passageiras. Basta olhar a flor que desabrocha, a água do rio ou uma bolha de sabão. Ninguém tentaria agarrar a bolha de sabão porque a considera bela, pois justamente isso a destruiria e destruiria a possibilidade de desfrutar a alegria de sua forma leve e de suas cores.
A beleza da vida é sua fluidez. Onde não há fluidez, não existe vida, apenas morte.O que Krishnamurti propõe é que olhemos as coisas sem permitir a intrusão do prazer. Simplesmente experienciar o deleite no momento em que ele acontece.
“Encontrareis, então, infinita alegria na vida. Não se pode pensar na alegria. A alegria é uma coisa imediata e se nela pensais a converteis em prazer. Viver no presente é a percepção imediata da beleza e o grande deleite que nela se encontra.” Libertador!
27 de jun. de 2010
...
Mas, então, um dia, depois que com muito esforço você deu alguns passos na direção que tanto almejava, uma porta é destrancada e surge a coragem para abri-la.
E, de repente, você está lá do outro lado.
Então, o mais curioso é que tudo parece tão natural, como se essa novíssima realidade sempre tivesse estado ali bem à sua frente!!!

Incrível se as coisas continuarem parecendo tão concretas... se continuar parecendo que existem portas e, pior, que elas estão trancadas.
2 de jun. de 2010
Daquilo que não se pode nomear
E a Dor não lhe dá nem ao menos o direito de saber como é seu rosto. Gigantesca, não deixa que se distinga nada além de seu pesado manto escuro. Cruel e assustadora, chega a todo momento, não se sabe de onde, com que intensidade, nem deixa conhecer as armas que traz.
Ela tem um Algoz, que executa suas ordens com prazer. Ele é incrivelmente sagaz e bem treinado. Dissimula, se aproxima, parece seu protetor. Depois desfere golpes cruéis. Mas consegue ser tão ligeiro e sutil em seus movimentos que você não percebe que foi ele quem trouxe e usou as armas que a Dor escolheu usar.
Por vezes, você suspeita que tem que se afastar, que algo não vai bem ali com seu grande protetor, mas, então, ele puxa forte as correntes e prende seu corpo e sua alma. O corpo dele sobre o seu, as palavras dele sobre as suas, o tempo, os pensamentos, tudo que era seu desmorona. Mas você pensa que fazem amor e se entrega ainda mais.
Então, o sequestro é definitivo. E o medo, o desespero, a surpresa e o inesperado continuam impedindo que você veja seu cativeiro, as grades na janela.
O perigo aumenta, pois a Dor e seu Algoz fazem grandes aliados dentro de você mesmo - a esperança, o desejo. A esperança de se livrar daquilo acaba também se tornando sua inimiga, pois lança você nos braços fortes que se estendem ocultando os espinhos que embalam a sua dor. Você simplesmente não quer ver os espinhos, a esperança também cega, você apenas espera desesperadamente que a Dor desapareça.
Quando, depois de muito tempo, você talvez conseguir escapar, as sombras e a escuridão serão tão densas que tomarão conta de todas as suas memórias e não permitirão que você saiba jamais. Jamais você saberá qualquer coisa além do fato de que houve Dor. Então, você irá se misturar com a Dor, você será a própria Dor, você será o sujeito que agoniza e a Dor que faz agonizar. Só existirá você e a Dor...
E, portanto, a culpa será toda sua.
A única proteção torna-se, então, saber que não se pode ir para aquele mesmo lugar de novo. Só há a certeza de não ir mais para lá, simplesmente porque está além da capacidade humana suportar mais uma vez uma Dor tão imensa e tão assustadoramente conhecida!
O problema é que para evitar tão grande perigo, não se vai a lugar nenhum mais, nunca mais.
9 de abr. de 2010
Uma estranha esperança
Talvez não se reencontrassem mais, a mulher e a esperança estranha que embalava sua vida.
Suspeitava disso, desde que a ajuda se transformara em mais dor e os gestos que prometiam ser uma mão forte estendida empurraram-na de volta ao despenhadeiro escuro do qual, por algum tempo, parecera estar saindo.
Nada se aproximava sem repetir a mesma e tão familiar história já vivida muitas vezes antes.
Tantas vezes, mas a estranha esperança sempre se reerguia. Teimosa e estranha, como um lunático peramulando pelas ruas a descrever insistente e animadamente um mundo muito particular. Tão estranha mesmo, que outro destino teria?
Desta vez só conseguia pensar que era provável que ela finalmente morresse. Agora, o golpe duro e pesado desafiava aquela estranha teimosia e ela morria em longa e aparentemente interminável agonia. Às vezes, respirava e sorria como se ainda pudesse se recuperar e logo fosse se levantar para descrever o mundo feliz que via. Mas esses espasmos de ânimo eram passageiros, visões da morte que se aproximava ligeira. E a morte produz delírios, tão loucos delírios que qualquer um se perde entre dor e alegria! Morria. Definitivamente morriam!
7 de mar. de 2010
Uma estranha coragem
Porque vinha de uma família de fortes e não encontrara a mesma força para lutar, buscou um caminho próprio. Restou-lhe a força de dar as costas para a vida, como se esta fosse um objeto desprezível.
Abrir mão era no seu caso uma vitória. Fora a única possibilidade de manter alguma integridade, de não se deixar aniquilar.
E não era, em absoluto, uma atitude passiva. Precisara de muita força para conseguir fazer isso. Cada passo que espalhava a água das poças na calçada desmanchava as imagens que a mesma água refletia - das lâmpadas dos postes, dos próprios passos, das nuvens, do luar... - e apagava lentamente as imagens de toda a vida.

Levar uma vida medíocre seria ainda mais devastador que tudo aquilo. Por mais doloroso que fosse, um ato de loucura pareceu a única forma de não se submeter. Lutava!
Imagem: Lucian Freud
16 de fev. de 2010
Quarto dia - uma festa que termina para outras poderem começar
Terceiro dia
Fiquei na cama respirando fundo, imaginando e procurando sentir que aos poucos eu me esvaziava de tudo aquilo.
O dia amanhecia com muita luz mais uma vez, o calor já vinha entrando pela janela, ocupando o quarto, deixando uma certa atmosfera pesada, como se o ar precisasse ser cortado ao meio para ser atravessado.
Liguei o ventilador. O ventilador no teto, o vento que descia, a boca seca, cabelo na cara, o vento que brincava com o cabelo, o vento que achava caminhos no meio dos lençóis, o dia claro.
Água no rosto. Acorda, a vida é hoje, acabou de chegar, fresca, nova. Por que não me entrego, por que não me entrego?
Procurei Alberto Caeiro na estante, ansiando por aquela desconstrução que ele apresenta. Logo achei companhia para aquele meu momento:
“Assim como as palavras falham quando querem exprimir qualquer pensamento
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade
(...)
Tudo o que existe simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.”
Fiquei olhando a paisagem, vendo o sol subir no céu e descer preenchendo todas as sombras, tentando acordar de verdade...
Ao longo do dia, com o Presente ao meu lado de novo - ele estava por perto, mas não muito, acho que era cuidadoso, procurava me ajudar a estabelecer com ele uma relação suave e mais natural - fui percebendo que havia muitas sutilezas às quais eu precisava estar atenta.
Por exemplo, o simples fato de querer estar com o Presente a todo custo já é estar fora dele. O Presente acontece e pronto! Ou você está lá e desfruta ou o trem passa e você fica na estação. Ele se renova o tempo todo, não dá pra pensar. Querer é estar no passado olhando um possível futuro. Pronto, não deu tempo! O Presente se foi!
Também a expectativa por resultados estraga toda a história. E eu, além de querer estar com o Presente a todo custo, queria ficar tão íntima dele que estaria sempre acompanhada daquela sensação de leveza indescritível que tinha experimentado no primeiro dia. Pronto, já tinha me perdido de novo! Meu deus, como a gente complica! Eu, pelo menos, complico muito!
E essas coisas são todas muito sutis, vão acontecendo junto, num canto dos seus pensamentos, quase imperceptíveis. Quando você vê, elas é que dominaram toda a história. Quando percebi, elas é que me ocupavam totalmente, era com elas que eu estava na verdade.
Bom, o restante do dia foi de atenção redobrada para tudo isso. Redobrada e frouxa ao mesmo tempo, difícil equlíbrio!
15 de fev. de 2010
Segundo dia
Ainda não dá pra saber se é bom ou ruim. É como ter uma casa para morar, mas precisar mobiliar tudo de novo. Dá uma sensação de perda, mas o novo é bom.
Não sei, não sei...
Numa certa hora do dia, precisei me preencher de algo conhecido. Pintei.
Pintamos. O Presente estava ali do meu lado e me ajudava a me concentrar no que eu estava fazendo. Nossa, como a mente quer escapar, o tempo todo quer estar em outro lugar!
Nós nos despedimos mais tarde dessa vez. Deixei ele ficar até de noite. Foi bom. Menos cansativo que no primeiro dia. Mas essa sensação de esvaziamento é estranha.
Vamos ver como isso segue...
14 de fev. de 2010
Primeiro dia
Acabei não anotando nada. Não dava certo. Ou desfrutava o Presente ou ficava tentando congelar o que já era passado. Tudo tão fugidio. Então, fiquei me exercitando em simplesmente estar lá e ficar... Em alguma outra oportunidade iria lembrar do que fosse importante lembrar.
E agora é o momento. Ainda não estou com o Presente hoje. Ainda não o convidei de volta. Ontem no final do dia estava exausta! É... vou começar a contar por aí.
No final do dia, estava completamente exausta. Fui dormir com uma baita dor de cabeça, absolutamente atordoada, dá para acreditar? Pois foi como foi. Era um exercício duro ficar com o Presente. Como tudo que é novo demanda muito mais energia, aquilo me exauriu. No final do dia, acabei pedindo que ele fosse embora. Não aguentava mais. Procurei ser gentil, mas estava tão cansada que devo ter sido grosseira. Tudo bem, acho que ele não guarda mágoas! hahahaha
Então, mergulhei compulsivamente em lembranças e planos. Nossa, como planejei! De supermercado, à festa de aniversário, listei um quinquilão de coisas. Planejei as coisas mais tolas e também construir uma casa, o jardim que ela vai ter, como vou fazer com a minha terapia e a minha vida este ano! Nossa, uma compulsão, uma embriaguez! Tudo bem, estou tentando não julgar nem me criticar. Devo ter forçado um pouco a barra, só isso...
Vi esse tipo de coisa acontecer muitas vezes quando fazia retiros. Ficávamos em silêncio de manhã até a hora do almoço. De repente, ondas de tagarelices e muita risada tomavam conta de quase todo mundo. Depois passava. À medida que o tempo ia passando, muitos se acostumavam com o silêncio e tudo ficava mais natural.
Estou nesse momento, começando... Esse Carnaval é meu retiro de Presente! E está só começando...
Bom, mas o que aconteceu nesse primeiro dia, AFINAL?
Percepção é a palavra. Percebi inúmeras coisas que não percebia normalmente. Poderia dizer zilhões de coisas, mas eu não estive tão presente assim. Imagino que com mais presença a percepção se abra ao infinito.
Mas estou no jardim de infância. Consegui perceber o meu corpo principalmente. O corpo no sofá, os pontos de mais contato, a pressão do corpo sobre as almofadas, a pressão das almofadas no corpo. O corpo no sol. O sol, o contato que também é contato, mas esse contato tão diferente dos raios de sol com o corpo. O suor, a gota que se forma e como que transborda e escorre escolhendo um caminho sem escolha, aquele que flui, que já está aberto, que é natural e fácil, que simplesmente acontece sem esforço, pela nuca, pela coluna, pela cintura... Dentro do corpo, a fome. O alimento, o sabor que fica mais acentuado quando se presta atenção nele. E diferenciado também, cada alimento na boca misturando-se lentamente, lentamente deixando seu sabor se agregar ao de um outro. Salgado, amargo, salgado-amargo... Temperaturas e texturas diferentes também. Tudo novo. O corpo na cadeira, o corpo deitado, o corpo andando. Os passos! Senti meus pés no chão e cada vez eles estavam mais em contato com o chão - ah, minha rolfista ia adorar isso! O vento. O vento no rosto. E o vento brinca, e muda de direção. E, de repente, vem por trás, sopra na nuca, depois de lado. Brinco com ele também mudo de direção só para ele me tocar em outro lugar. Uma infinidade de sensações novas. O líquido quente que desce e deixa o corpo, quente, quente, quente, o alívio. Ah! Tem de tudo, não é? É só prestar atenção. De pum a tesão. O Presente desvela, mas tem que ter coragem pra ver...
E percebi que dá para fazer as coisas normalmente com o Presente ao seu lado. Acho que é só uma questão de treino. O pedreiro veio. Saí pra comprar o material que faltava e fui buscar o pedreiro na hora que havíamos marcado. Ele veio, trabalhou, e eu e o Presente ali por perto. Eu me treinando a não fugir. Ficar, ficar no que é bom e no que incomoda, na beleza da vida e nas suas limitações também.
Em algum momento, já sozinha de novo, tive uma experiência, a mais significativa desse dia. Bom, uma das experiências mais significativas das últimas semanas ou dos últimos meses! A vida, de repente, fluiu. Ou: a vida de repente fluiu. Isso, sem vírgulas, sem paradas, sem bloqueio. Eu saí do caminho, liberei a passagem de algo. E a vida jorrou! Não havia um passado do qual eu me lembrava e no qual eu me reconhecia, que estivesse atrelado a um futuro de antemão congelado pelas coisas que eu queria. Não sei explicar. Era a minha vida, mas eu não estava lá. Eu estava em mim e eu não era nada do que tinha passado nem do que estava por vir. Estava de mãos dadas com o Presente nessa hora. Mais: a gente tinha se abraçado. Eu me misturei por alguns instantes com ele. Acho que consegui não pensar. Mergulhamos na piscina, só nós dois naquele abraço. O Presente e eu. A água, o frescor da água, o embalo da água, o aconchego. De repente, o Presente passou a ser a piscina. E eu fui mergulhando cada vez mais naquele abraço. Ele era a água, e eu me refrescava naquela água. Leveza. Indescritível a leveza! Não havia nem antes nem depois. Só era eu ali, o mundo naquele instante, a vida naquele momento, o presente ali me envolvendo...!
Bom, ele está aqui de novo. Vai me abduzir mais uma vez! Mas me devolve quando eu quero. Já vi que respeita as minhas escolhas. Não me assusta mais. Posso decidir quando quero estar com ele...
13 de fev. de 2010
Carnaval? Quando? Hoje? !?!?!?
A manhã apaga
As perguntas da noite
As coisas são claras
As coisas são sólidas
O mundo se explica
Só por existir
A memória dorme
O presente ri
Tenho que pular essa parte de que as coisas são sólidas (onde sempre tropeço)... mas o fato é que... o presente ri! E deve estar rindo de mim inclusive, se esborrachando de tanto rir, dobrado no chão numa gargalhada sonora no meio de um ataque de riso. Eu, sempre totalmente ignorante da sua presença, encontro com ele hoje, num estado de completa surpresa, com cara de tola, absurdada, como se fosse a primeira vez na minha vida! Caramba, e será que não é? Não lembrava dessa sua cara enigmática. Prazer, já tínhamos nos visto antes? Se nos vimos, já faz muito tempo.
Então estamos aqui, eu, o cachorro da Mar, o céu azul de brigadeiro, o sol, o verde que abraça essa casa e o presente... Estou um pouco sem graça. Penso na goteira que ainda não consertei e na pia que caiu. Pedreiros, material, acho que vou sair pra ver isso... O presente dá um assobio daqueles com os dedos na boca, que sempre tive vontade de aprender mas nunca consegui, e me chama de volta. Folheio o jornal, os cinemas, tento escolher um filme. Quem sabe no final da tarde, depois dos pedreiros? Então, ele vira as costas (o presente). Vai desistir de mim. Não é insistente, não se apega, é solto, vai fluindo. Peço pra ele voltar, e imediatamente estamos aqui de volta frente a frente. Muito lindo ele. Fico sem assunto, com cara paisagem, cada vez mais sem graça. Ele faz igual. Se rio, ri também. Jogo de espelhos? Não. Faço uma careta, e a dele é mais engraçada ainda. Tem personalidade.
Fico sem assunto de novo. É uma companhia nova e não sei o que dizer. Esse cara é absolutamente desconcertante.
Folheio um livro que deixei ao lado do computador - Meditação andando, de um monge budista vietnamita de nome engraçadinho, que deve se pronunciar Ti Ná Ram, e que ganhei da minha rolfista (e amiga) no final do tratamento. Segunda página:
Alguém perguntou a Buda:
"O que o senhor e seus discípulos praticam?".
Ele respondeu:
"Nós nos sentamos, nós andamos, nós comemos".
O inquiridor continuou:
"Mas, senhor, qualquer um se senta, anda e come".
Então, Buda disse:
"Quando nós sentamos, sabemos que estamos sentando. Quando nós andamos, sabemos que estamos andando. Quando nós comemos, sabemos que estamos comendo".
Humm... Isso deve ter sido ele (o presente) quem disse... Acho que vamos engatar uma conversa.
Percebo que estou irritada agora e começo a falar:
"Palavras muito bonitas! Você também é muito bonito e atraente, mas não entendo isso de viver o presente, de estar no aqui e no agora! As pessoas falam e falam sobre isso, repetem exaustivamente, acham lindo falar que é importante, mas... simplesmente não funciona! Serve para as crianças brincarem na areia da praia construindo castelos, poços, túneis..." Ai, que lembrança boa me invade! Tenho vontade de chorar. E choro. "Droga. Não sei por que estou chorando. Ah! É porque estou no passado, lamentando o que já se foi. E isso não pode, não é bom. TENHO que viver o presente. Então, está bem, estou aqui, sim senhor. Mostre-me como se faz isso!!!!!!!".
Ficamos em silêncio. Parece que ele só observa a minha raiva enquanto ela vai se esvaziando...
"Tempo, tempo, tempo. És um senhor tão bonito..."
Algum tempo se passou. Não sei o que aconteceu. Não sei o que vai acontecer. Agora o presente está mais perto de mim. Levantou, aproximou-se de mim e está pegando a minha mão neste momento. Acho que me convida para fazer algo. Não sei o que é. Levanto também. Vamos para algum lugar. Não sei que convite é esse, mas estou indo. Espero poder voltar para continuar contando esse encontro. Espero que ele não esteja me abduzindo - hahahaha!
De qualquer forma, o dia está lindo e o Carnaval - seja lá o que signifique isso este ano - está só começando!






