No final da adolescência tive uma experiência muito especial, que de várias maneiras me acompanha até hoje: com mais três amigos, passei um mês numa aldeia indígena no Mato Grosso.
Embora os índios já estivessem (LAMENTAVELMENTE!) influenciados pela nossa cultura, catequizados, vestidos, ansiosos, medicados com nossos remédios, comendo nossa comida, estudando nossa língua etc., ainda viviam fortemente seus costumes e tradições.
Embora os índios já estivessem (LAMENTAVELMENTE!) influenciados pela nossa cultura, catequizados, vestidos, ansiosos, medicados com nossos remédios, comendo nossa comida, estudando nossa língua etc., ainda viviam fortemente seus costumes e tradições.
Para além de todas as festas, danças, ritos, caças, plantios, iniciações que eu vi, duas coisas me marcaram de maneira muito intensa. A primeira delas foi saber que os meninos, ao entrarem na adolescência, saíam da casa dos pais e iam morar juntos numa casa especial na aldeia. Ali tinham que administrar suas vidas sozinhos e cuidar de tudo da maneira que achassem melhor e do melhor jeito possível.
Não é preciso dizer o quanto isso calou fundo em mim e por quanto tempo não sonhei com uma casa dessas na cidade! Nada me parecia mais adequado do que ter essa oportunidade, ser preparado para ela como uma passagem para um outro momento de mais responsabilidades, ser cuidadosamente amparado pelo grupo para que sua vida possa prosseguir. Indescritível como respeitei aquelas pessoas e sua sabedoria depois que descobri isso.
Outro forte aprendizado que tive por lá e que fala comigo até hoje não surgiu de uma vez só, não o encontrei andando pela aldeia ou porque alguém tivesse me apresentado ou me contado algo. Este foi-se construindo aos poucos. Demorei muito a entendê-lo. Via, mas não sabia o que era.

O fato é que à noite saíamos, eu e meus três amigos, andando sob a luz de um luar indescritível ou simplesmente das estrelas que, juro, eram tantas, que iluminavam facilmente todo aquele planalto, e sempre encontrávamos uma fogueirinha e vários índios mais velhos em volta dela. A aldeia dormia. Tudo em silêncio. Os únicos sons naqueles momentos vinham dali: o estalar do fogo e o vozerio dos velhos. Eles falavam a língua deles e não entendíamos nada. Eles não se preocupavam conosco. Talvez nem nos vissem, tão entretidos estavam em sua conversa. Deixavam que ficássemos por ali, e nós observávamos extasiados. Várias vezes senti que aquela roda, o fogo, a fala que circulava em volta do fogo me levavam para um outro tipo de consciência do mundo. Noite após noite voltei àquela rodinha tentando entender o que aqueles homens faziam ali. Às vezes tinha a impressão de que eles falavam todos juntos, de que não se ouviam. Tentava entender, pelo tom da fala, sobre o que falavam. Não pareciam discutir problemas, não estavam brigando, não pareciam felizes nem infelizes, não estavam preocupados nem despreocupados, não conversavam futilidades nem traçavam planos de guerra. Concentrados, iam colocando suas palavras na roda, apresentando-as ao fogo talvez. Dirigiam sua fala ao centro e a todos. Era muito misterioso tudo aquilo para mim.
Um dia quando o sol começava a nascer tive um lampejo de que aqueles homens produziam à noite a harmonia para a vida do grupo de dia. Foi um pensamento assim, bem simples. Só isso. Tive uma sensação muito forte de que aquela era a base e a sustentação de toda a vida deles.
Voltei à roda mais algumas vezes até o final da nossa estada lá e cada vez isso fazia mais sentido pra mim e se encaixava mais naquilo que eu via.
Eles se ouviam sim e como se ouviam. Nunca estavam exaltados, nem ansiosos, nem preocupados, nem temerosos. Também não estavam exultantes, excitados ou eufóricos. Simplesmente iam até ali e todas as noites falavam de coisas, da maneira como cada um via essas coisas. Pouco importava o ponto de vista de cada um e, ao mesmo tempo, importava muito o ponto de vista de cada um. Era um ponto de vista individual, mas era do grupo. Não pertencia a ninguém, havia sido dado como uma possibilidade individual pelo próprio grupo, pelo próprio coletivo, pois que cada um daqueles velhos naquela roda tinha possibilidade de falar do seu ponto de vista pelo lugar que ocupava no grupo. Então, sua fala tinha nascido do grupo e naqueles momentos voltava para ele.
Se às vezes as falas se sobrepunham era porque eles já tinham uma habilidade superior de se ouvir e, com certeza, nada escapava. Também acho que era porque se ouviam com outros canais, não com a mente racional, que tem que captar, apreender, organizar e reorganizar todos os dados, checar e reformular e arquivar em locais lógicos. Aqueles homens se ouviam por todos os poros.
Penso que também pouco importava para onde ia individualmente o que falavam ali. Aquilo tudo ia para o grupo como um todo. Para o grupo de velhos em volta da fogueira e para os mais jovens , mulheres e crianças que dormiam nas ocas naquele momento. Ninguém formulava opiniões ali nem se prendia a opiniões que formulava. Isso não tinha função nem lugar naquela roda. Estavam em silêncio internamente enquanto falavam.
E as respostas, quando eventualmente precisavam que alguma resposta se formasse - para uma tomada de decisão, um encaminhamento novo, a solução de algum problema na aldeia - essas respostas se formavam na alma do grupo. Assim, bem simples. Algo como uma soma de todos aqueles pontos de vista, mas que, ao mesmo tempo, não tinha nada a ver com uma soma de pontos de vista. Algo que incluía todos, que atendia a cada um na mais autêntica necessidade de cada um – mesmo que fosse pra repreender ou expulsar alguém, essa pessoa estava totalmente incluída naquela fala e por ela chegavam de maneira mais verdadeira possível.
Era surpreendente tudo aquilo! Ainda hoje tento entender como acontecia. Então, uma palavra sempre me vêem à cabeça nesses momentos: verdade. Aquela fala em torno do fogo era desprendida, honesta, sincera e absolutamente verdadeira. Ninguém manipulava, escondia ou mentia ou deixava que opiniões ou interesses pessoais conduzisse suas falas. As coisas eram ditas com clareza e sem ambigüidade. De que outra maneira um diálogo real pode acontecer senão com base em muita sinceridade e verdade? Fale-se o que se quiser falar por aí, construam as teorias que for sobre comunicação e relações humanas, aqueles homens me deram de presente o melhor ensinamento sobre isso. Como construir ou estabelecer uma relação real com os outros? Com tanta verdade, que pode parecer uma postura quase ingênua, mas que, de fato, é a maior sabedoria que pode haver.
Acho que depois disso nunca me arrependi dos momentos em que consegui achar essa verdade. É muito triste ver que a falta dela destrói a confiança e faz com que os caminhos se fechem para todos os que estão envolvidos em uma situação! Que as fogueiras possam se acender e nossos velhos índios (aqueles que moram dentro de nós) possam falar! Mas que, principalmente, tenhamos possibilidade de ouvi-los! Ou então todo o esforço terá sido em vão...





