9 de abr. de 2010

Uma estranha esperança

Procurava desesperadamente por aquela estranha esperança de se refazer, de recriar a vida quase toda, a vida que escavara buracos tão profundos na alma que a dor já nem conseguia produzir os gritos lacinantes de socorro mas calara o último pedido aterrada aos pés de quem parecia, por algum momento, ter vindo ajudá-la.
Talvez não se reencontrassem mais, a mulher e a esperança estranha que embalava sua vida.
Suspeitava disso, desde que a ajuda se transformara em mais dor e os gestos que prometiam ser uma mão forte estendida empurraram-na de volta ao despenhadeiro escuro do qual, por algum tempo, parecera estar saindo.
Nada se aproximava sem repetir a mesma e tão familiar história já vivida muitas vezes antes.
Tantas vezes, mas a estranha esperança sempre se reerguia. Teimosa e estranha, como um lunático peramulando pelas ruas a descrever insistente e animadamente um mundo muito particular. Tão estranha mesmo, que outro destino teria?
Desta vez só conseguia pensar que era provável que ela finalmente morresse. Agora, o golpe duro e pesado desafiava aquela estranha teimosia e ela morria em longa e aparentemente interminável agonia. Às vezes, respirava e sorria como se ainda pudesse se recuperar e logo fosse se levantar para descrever o mundo feliz que via. Mas esses espasmos de ânimo eram passageiros, visões da morte que se aproximava ligeira. E a morte produz delírios, tão loucos delírios que qualquer um se perde entre dor e alegria! Morria. Definitivamente morriam!