Mas há uma outra forma mais grave de o pensamento aprisionar: quando uma experiência negativa produz um sofrimento que não é satisfatoriamente elaborado ou assimilado.
Quando uma situação não se fecha satisfatoriamente, produz tensão, a gente sabe... A falta de sentido e a dor produzida deixam algo em suspenso. A situação será repetida, às vezes exaustivamente, para se tentar fechar a gestalt incompleta. Os mesmos elementos serão reunidos, a pessoa estará de frente para o mesmo quadro e mais uma vez tentará entendê-lo - na verdade, tentará vivê-lo de um modo diferente.
Já não é nem mais o pensamento que aprisiona, pelo menos não o pensamento consciente. Isso vai lá num lugar bem profundo, obscuro, difícil de olhar e enxergar. E as emoções também tem papel de protagonista nessa história. E sabe-se lá quantas coisas mais... Até as sinapses nervosas - estão provando - seguem o mesmo caminho aberto inicialmente!
Como o corpo busca sua sobrevivência desencadeando inúmeros processos físicos ao menor sinal de dor, a psique fará o mesmo. É uma questão de sobrevivência psicológica dar um outro significado ao sinal já conhecido. Quanto mais central isso for na história de uma pessoa, mais aparecerá como uma questão essencial de manutenção da integridade da vida.
É difícil quando, então, o mesmo sentido inicial se repete e se reforça.
Por exemplo, se uma criança é abandonada por um dos pais, ela não tem recursos para elaborar isso de uma maneira satisfatória ou adequada à realidade. Ela não vai pensar: "meu pai tem limitações e posso aceitar isso" ou "minha mãe tem dificuldades em estabelecer vínculos e isso nada tem a ver comigo especificamente". A única conclusão possível é: "HÁ ALGO DE ERRADO COMIGO". Só isso, assim, bem simples, é tudo o que uma criança pode concluir! Novas relações serão estabelecidas ao longo da vida e elas até poderão "curar" a conclusão inicial. Infelizmente a tendência é repetir. Repetir o abandono, o desamor, a rejeição.
E, então, o mesmo sentido dado originariamente será reforçado.
Tudo muito óbvio e simples. Sem envolvimento emocional, pode-se até imaginar que seja possível superar algo assim com o passar do tempo, sozinho, com o próprio desenrolar da vida. Mas quando se vê ou se vive uma história como essa mais de perto, o olhar é outro.
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Um dia um menino é abandonado na FEBEM por sua mãe. A intenção da mãe era livrá-lo da miséria em que ela própria vivia - miséria material, mas quem sabe até mesmo emocional e psicológica, já que, como se soube depois, essa mulher apresentava alguns distúrbios mentais. Ela supôs que a FEBEM fosse um instituição boa, que daria alimento, educação e um ambiente saudável e seguro à sua criança. Era seu filho mais novo de outros oito, o único que a mãe deixa, aquele que ela escolhe para ter uma vida melhor. Para o menino, fica apenas a imagem da mãe que lhe dá as costas e se afasta sem explicação. Revolta, violência, agressividade. Anos depois, uma outra pessoa surge na vida dessa criança e lhe oferece atenção, amor e um olhar que o valida - talvez essas palavras sejam todas sinônimos! A vida se transforma gradualmente.
(De "O contador de histórias", filme sobre Roberto Carlos Ramos)

A situação original finalmente ganha um sentido que oferece possibilidades à vida.