5 de jul. de 2010

“A reação natural do nosso desejo ante uma coisa bela é pervertida pelo pensamento”

Temos uma aspiração natural e legítima a ter experiências prazerosas, diz Krishnamurti. No entanto, encontramos muita dor em nossa busca de prazer - e lá se vão vários séculos em que inúmeros mestres e pensadores, orientais e ocidentais, de Buda a Freud(!) dizem isso!
Se olharmos mais de perto nossas experiências de felicidade e sofrimento, conseguiremos perceber aquilo que nos puxa o tapete, que nos arremessa em desconforto e dor justamente quando procurávamos o seu oposto.

Quando vemos uma flor abrindo suas cores fantásticas sob a luz da manhã ou num fim de tarde ou quando observamos a água do rio percorrendo seu caminho refletindo os raios de sol, isso nos invade e proporciona sensações muito agradáveis. Podemos nos deixar ficar nessa experiência e sermos permeados por ela.

O que destrói a felicidade proporcionada por momentos como esses é que o pensamento converte em memória a experiência vivida e passamos a pensar repetidamente no que se foi.
Nossa reação natural ante uma coisa bela é pervertida pelo pensamento. Então, perdemos a liberdade.

O pensamento e a memória são necessários em muitos âmbitos da vida, mas aqui não deveriam ter lugar ou, pelo menos, não o lugar que tem.
Tudo o que é resultado da memória é velho. Nossos conhecimentos são velhos, nossa valiosa “experiência de vida” é velha. Embora necessários, precisam ser colocados em seu devido lugar.

“O pensamento, que é velho, torna também velho aquilo que olhastes com deleite e que por um momento sentistes profundamente.”

É do velho que vem o prazer, conclui Krishnamurti - distinguindo o prazer que tanto ansiamos da experiência de alegria e deleite que temos num determinado momento. O prazer nunca vem do novo, porque no novo não existe o tempo e, portanto, não há a exigência da repetição, não há a luta para perpetuar o que está sendo ou o que já se foi, não há o medo da perda, não há ânsia nem raiva nem violência. Assim, também não há desapontamento nem dor.

As coisas são por natureza passageiras. Basta olhar a flor que desabrocha, a água do rio ou uma bolha de sabão. Ninguém tentaria agarrar a bolha de sabão porque a considera bela, pois justamente isso a destruiria e destruiria a possibilidade de desfrutar a alegria de sua forma leve e de suas cores.

A beleza da vida é sua fluidez. Onde não há fluidez, não existe vida, apenas morte.

O que Krishnamurti propõe é que olhemos as coisas sem permitir a intrusão do prazer. Simplesmente experienciar o deleite no momento em que ele acontece.

“Encontrareis, então, infinita alegria na vida. Não se pode pensar na alegria. A alegria é uma coisa imediata e se nela pensais a converteis em prazer. Viver no presente é a percepção imediata da beleza e o grande deleite que nela se encontra.” Libertador!

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