16 de fev. de 2010

Quarto dia - uma festa que termina para outras poderem começar

Este momento...


... é fruto de momentos anteriores...



... e semente de momentos futuros.



Nada de errado com o passado nem com o futuro. Eles são parte da história.

O problema parece surgir quando eu me fixo neles (ou me deixo aprisionar por eles, quase sem escolha), meros pensamentos, ausências do que é agora, e a vida fica paralisada!



Fim de Carnaval! A vida segue (diferente)!






Terceiro dia

"Devo estar fazendo alguma coisa errada". Foi o que eu pensei quando acordei e me percebi completamente invadida de passado. Pois é.. um monte de lembranças, julgamentos, sensações atreladas ao que já passou e também expectativas amalgamadas a essas lembranças.
Fiquei na cama respirando fundo, imaginando e procurando sentir que aos poucos eu me esvaziava de tudo aquilo.
O dia amanhecia com muita luz mais uma vez, o calor já vinha entrando pela janela, ocupando o quarto, deixando uma certa atmosfera pesada, como se o ar precisasse ser cortado ao meio para ser atravessado.
Liguei o ventilador. O ventilador no teto, o vento que descia, a boca seca, cabelo na cara, o vento que brincava com o cabelo, o vento que achava caminhos no meio dos lençóis, o dia claro.
Água no rosto. Acorda, a vida é hoje, acabou de chegar, fresca, nova. Por que não me entrego, por que não me entrego?

Procurei Alberto Caeiro na estante, ansiando por aquela desconstrução que ele apresenta. Logo achei companhia para aquele meu momento:

“Assim como as palavras falham quando querem exprimir qualquer pensamento
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade
(...)
Tudo o que existe simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.”

Fiquei olhando a paisagem, vendo o sol subir no céu e descer preenchendo todas as sombras, tentando acordar de verdade...




Ao longo do dia, com o Presente ao meu lado de novo - ele estava por perto, mas não muito, acho que era cuidadoso, procurava me ajudar a estabelecer com ele uma relação suave e mais natural - fui percebendo que havia muitas sutilezas às quais eu precisava estar atenta.

Por exemplo, o simples fato de querer estar com o Presente a todo custo já é estar fora dele. O Presente acontece e pronto! Ou você está lá e desfruta ou o trem passa e você fica na estação. Ele se renova o tempo todo, não dá pra pensar. Querer é estar no passado olhando um possível futuro. Pronto, não deu tempo! O Presente se foi!

Também a expectativa por resultados estraga toda a história. E eu, além de querer estar com o Presente a todo custo, queria ficar tão íntima dele que estaria sempre acompanhada daquela sensação de leveza indescritível que tinha experimentado no primeiro dia. Pronto, já tinha me perdido de novo! Meu deus, como a gente complica! Eu, pelo menos, complico muito!

E essas coisas são todas muito sutis, vão acontecendo junto, num canto dos seus pensamentos, quase imperceptíveis. Quando você vê, elas é que dominaram toda a história. Quando percebi, elas é que me ocupavam totalmente, era com elas que eu estava na verdade.


Bom, o restante do dia foi de atenção redobrada para tudo isso. Redobrada e frouxa ao mesmo tempo, difícil equlíbrio!

15 de fev. de 2010

Segundo dia

É como se um ladrão tivesse roubado tudo que há na sua casa...!

Ainda não dá pra saber se é bom ou ruim. É como ter uma casa para morar, mas precisar mobiliar tudo de novo. Dá uma sensação de perda, mas o novo é bom.
Não sei, não sei...

Numa certa hora do dia, precisei me preencher de algo conhecido. Pintei.



Pintamos. O Presente estava ali do meu lado e me ajudava a me concentrar no que eu estava fazendo. Nossa, como a mente quer escapar, o tempo todo quer estar em outro lugar!

Nós nos despedimos mais tarde dessa vez. Deixei ele ficar até de noite. Foi bom. Menos cansativo que no primeiro dia. Mas essa sensação de esvaziamento é estranha.

Vamos ver como isso segue...










14 de fev. de 2010

Primeiro dia

Deixei uma página aberta aqui e um caderno com caneta perto de mim para ir anotando o que acontecia... Estávamos nos conhecendo, o presente e eu - melhor: o Presente e eu -, e era tudo tão novo que queria registrar, não podia esquecer de nada. Se fosse fotografável, fotografava. Mas só era relatável. E olhe lá!

Acabei não anotando nada. Não dava certo. Ou desfrutava o Presente ou ficava tentando congelar o que já era passado. Tudo tão fugidio. Então, fiquei me exercitando em simplesmente estar lá e ficar... Em alguma outra oportunidade iria lembrar do que fosse importante lembrar.

E agora é o momento. Ainda não estou com o Presente hoje. Ainda não o convidei de volta. Ontem no final do dia estava exausta! É... vou começar a contar por aí.

No final do dia, estava completamente exausta. Fui dormir com uma baita dor de cabeça, absolutamente atordoada, dá para acreditar? Pois foi como foi. Era um exercício duro ficar com o Presente. Como tudo que é novo demanda muito mais energia, aquilo me exauriu. No final do dia, acabei pedindo que ele fosse embora. Não aguentava mais. Procurei ser gentil, mas estava tão cansada que devo ter sido grosseira. Tudo bem, acho que ele não guarda mágoas! hahahaha

Então, mergulhei compulsivamente em lembranças e planos. Nossa, como planejei! De supermercado, à festa de aniversário, listei um quinquilão de coisas. Planejei as coisas mais tolas e também construir uma casa, o jardim que ela vai ter, como vou fazer com a minha terapia e a minha vida este ano! Nossa, uma compulsão, uma embriaguez! Tudo bem, estou tentando não julgar nem me criticar. Devo ter forçado um pouco a barra, só isso...

Vi esse tipo de coisa acontecer muitas vezes quando fazia retiros. Ficávamos em silêncio de manhã até a hora do almoço. De repente, ondas de tagarelices e muita risada tomavam conta de quase todo mundo. Depois passava. À medida que o tempo ia passando, muitos se acostumavam com o silêncio e tudo ficava mais natural.

Estou nesse momento, começando... Esse Carnaval é meu retiro de Presente! E está só começando...

Bom, mas o que aconteceu nesse primeiro dia, AFINAL?

Percepção é a palavra. Percebi inúmeras coisas que não percebia normalmente. Poderia dizer zilhões de coisas, mas eu não estive tão presente assim. Imagino que com mais presença a percepção se abra ao infinito.

Mas estou no jardim de infância. Consegui perceber o meu corpo principalmente. O corpo no sofá, os pontos de mais contato, a pressão do corpo sobre as almofadas, a pressão das almofadas no corpo. O corpo no sol. O sol, o contato que também é contato, mas esse contato tão diferente dos raios de sol com o corpo. O suor, a gota que se forma e como que transborda e escorre escolhendo um caminho sem escolha, aquele que flui, que já está aberto, que é natural e fácil, que simplesmente acontece sem esforço, pela nuca, pela coluna, pela cintura... Dentro do corpo, a fome. O alimento, o sabor que fica mais acentuado quando se presta atenção nele. E diferenciado também, cada alimento na boca misturando-se lentamente, lentamente deixando seu sabor se agregar ao de um outro. Salgado, amargo, salgado-amargo... Temperaturas e texturas diferentes também. Tudo novo. O corpo na cadeira, o corpo deitado, o corpo andando. Os passos! Senti meus pés no chão e cada vez eles estavam mais em contato com o chão - ah, minha rolfista ia adorar isso! O vento. O vento no rosto. E o vento brinca, e muda de direção. E, de repente, vem por trás, sopra na nuca, depois de lado. Brinco com ele também mudo de direção só para ele me tocar em outro lugar. Uma infinidade de sensações novas. O líquido quente que desce e deixa o corpo, quente, quente, quente, o alívio. Ah! Tem de tudo, não é? É só prestar atenção. De pum a tesão. O Presente desvela, mas tem que ter coragem pra ver...

E percebi que dá para fazer as coisas normalmente com o Presente ao seu lado. Acho que é só uma questão de treino. O pedreiro veio. Saí pra comprar o material que faltava e fui buscar o pedreiro na hora que havíamos marcado. Ele veio, trabalhou, e eu e o Presente ali por perto. Eu me treinando a não fugir. Ficar, ficar no que é bom e no que incomoda, na beleza da vida e nas suas limitações também.

Em algum momento, já sozinha de novo, tive uma experiência, a mais significativa desse dia. Bom, uma das experiências mais significativas das últimas semanas ou dos últimos meses! A vida, de repente, fluiu. Ou: a vida de repente fluiu. Isso, sem vírgulas, sem paradas, sem bloqueio. Eu saí do caminho, liberei a passagem de algo. E a vida jorrou! Não havia um passado do qual eu me lembrava e no qual eu me reconhecia, que estivesse atrelado a um futuro de antemão congelado pelas coisas que eu queria. Não sei explicar. Era a minha vida, mas eu não estava lá. Eu estava em mim e eu não era nada do que tinha passado nem do que estava por vir. Estava de mãos dadas com o Presente nessa hora. Mais: a gente tinha se abraçado. Eu me misturei por alguns instantes com ele. Acho que consegui não pensar. Mergulhamos na piscina, só nós dois naquele abraço. O Presente e eu. A água, o frescor da água, o embalo da água, o aconchego. De repente, o Presente passou a ser a piscina. E eu fui mergulhando cada vez mais naquele abraço. Ele era a água, e eu me refrescava naquela água. Leveza. Indescritível a leveza! Não havia nem antes nem depois. Só era eu ali, o mundo naquele instante, a vida naquele momento, o presente ali me envolvendo...!

Bom, ele está aqui de novo. Vai me abduzir mais uma vez! Mas me devolve quando eu quero. Já vi que respeita as minhas escolhas. Não me assusta mais. Posso decidir quando quero estar com ele...

13 de fev. de 2010

Carnaval? Quando? Hoje? !?!?!?

Esse Carnaval, feriado grande, começa sem plano algum. Acho que nunca aconteceu assim. Sempre tantos projetos, tudo planejado... O que houve!? Esqueci de pensar, não deu tempo, não percebi que estava chegando. Minhas filhas foram viajar, uma no começo da semana, a outra ontem, e só então me dei conta! Li absolutamente surpresa a manchete do jornal de hoje sobre a primeira noite de desfile das escolas de samba em São Paulo. Meu deus, estou em outro planeta! De repente, vejo-me aqui, nesse dia branco cheio de muita luz e absolutamente vazio (de expectativas). Lembro do poema do Ferreira Gullar:

A manhã apaga
As perguntas da noite

As coisas são claras
As coisas são sólidas

O mundo se explica
Só por existir

A memória dorme
O presente ri


Tenho que pular essa parte de que as coisas são sólidas (onde sempre tropeço)... mas o fato é que... o presente ri! E deve estar rindo de mim inclusive, se esborrachando de tanto rir, dobrado no chão numa gargalhada sonora no meio de um ataque de riso. Eu, sempre totalmente ignorante da sua presença, encontro com ele hoje, num estado de completa surpresa, com cara de tola, absurdada, como se fosse a primeira vez na minha vida! Caramba, e será que não é? Não lembrava dessa sua cara enigmática. Prazer, já tínhamos nos visto antes? Se nos vimos, já faz muito tempo.

Então estamos aqui, eu, o cachorro da Mar, o céu azul de brigadeiro, o sol, o verde que abraça essa casa e o presente... Estou um pouco sem graça. Penso na goteira que ainda não consertei e na pia que caiu. Pedreiros, material, acho que vou sair pra ver isso... O presente dá um assobio daqueles com os dedos na boca, que sempre tive vontade de aprender mas nunca consegui, e me chama de volta. Folheio o jornal, os cinemas, tento escolher um filme. Quem sabe no final da tarde, depois dos pedreiros? Então, ele vira as costas (o presente). Vai desistir de mim. Não é insistente, não se apega, é solto, vai fluindo. Peço pra ele voltar, e imediatamente estamos aqui de volta frente a frente. Muito lindo ele. Fico sem assunto, com cara paisagem, cada vez mais sem graça. Ele faz igual. Se rio, ri também. Jogo de espelhos? Não. Faço uma careta, e a dele é mais engraçada ainda. Tem personalidade.
Fico sem assunto de novo. É uma companhia nova e não sei o que dizer. Esse cara é absolutamente desconcertante.
Folheio um livro que deixei ao lado do computador - Meditação andando, de um monge budista vietnamita de nome engraçadinho, que deve se pronunciar Ti Ná Ram, e que ganhei da minha rolfista (e amiga) no final do tratamento. Segunda página:

Alguém perguntou a Buda:
"O que o senhor e seus discípulos praticam?".

Ele respondeu:
"Nós nos sentamos, nós andamos, nós comemos".

O inquiridor continuou:
"Mas, senhor, qualquer um se senta, anda e come".

Então, Buda disse:
"Quando nós sentamos, sabemos que estamos sentando. Quando nós andamos, sabemos que estamos andando. Quando nós comemos, sabemos que estamos comendo".

Humm... Isso deve ter sido ele (o presente) quem disse... Acho que vamos engatar uma conversa.
Percebo que estou irritada agora e começo a falar:
"Palavras muito bonitas! Você também é muito bonito e atraente, mas não entendo isso de viver o presente, de estar no aqui e no agora! As pessoas falam e falam sobre isso, repetem exaustivamente, acham lindo falar que é importante, mas... simplesmente não funciona! Serve para as crianças brincarem na areia da praia construindo castelos, poços, túneis..." Ai, que lembrança boa me invade! Tenho vontade de chorar. E choro. "Droga. Não sei por que estou chorando. Ah! É porque estou no passado, lamentando o que já se foi. E isso não pode, não é bom. TENHO que viver o presente. Então, está bem, estou aqui, sim senhor. Mostre-me como se faz isso!!!!!!!".
Ficamos em silêncio. Parece que ele só observa a minha raiva enquanto ela vai se esvaziando...

"Tempo, tempo, tempo. És um senhor tão bonito..."

Algum tempo se passou. Não sei o que aconteceu. Não sei o que vai acontecer. Agora o presente está mais perto de mim. Levantou, aproximou-se de mim e está pegando a minha mão neste momento. Acho que me convida para fazer algo. Não sei o que é. Levanto também. Vamos para algum lugar. Não sei que convite é esse, mas estou indo. Espero poder voltar para continuar contando esse encontro. Espero que ele não esteja me abduzindo - hahahaha!

De qualquer forma, o dia está lindo e o Carnaval - seja lá o que signifique isso este ano - está só começando!