Deixei uma página aberta aqui e um caderno com caneta perto de mim para ir anotando o que acontecia... Estávamos nos conhecendo, o presente e eu - melhor: o
Presente e eu -, e era tudo tão novo que queria registrar, não podia esquecer de nada. Se fosse fotografável, fotografava. Mas só era relatável. E olhe lá!
Acabei não anotando nada. Não dava certo. Ou desfrutava o Presente ou ficava tentando congelar o que já era passado. Tudo tão fugidio. Então, fiquei me exercitando em simplesmente
estar lá e ficar... Em alguma outra oportunidade iria lembrar do que fosse importante lembrar.
E agora é o momento. Ainda não estou com o Presente hoje. Ainda não o convidei de volta. Ontem no final do dia estava exausta! É... vou começar a contar por aí.
No final do dia, estava completamente exausta. Fui dormir com uma baita dor de cabeça, absolutamente atordoada, dá para acreditar? Pois foi como foi. Era um exercício duro ficar com o Presente. Como tudo que é novo demanda muito mais energia, aquilo me exauriu. No final do dia, acabei pedindo que ele fosse embora. Não aguentava mais. Procurei ser gentil, mas estava tão cansada que devo ter sido grosseira. Tudo bem, acho que ele não guarda mágoas! hahahaha
Então, mergulhei compulsivamente em lembranças e planos. Nossa, como planejei! De supermercado, à festa de aniversário, listei um quinquilão de coisas. Planejei as coisas mais tolas e também construir uma casa, o jardim que ela vai ter, como vou fazer com a minha terapia e a minha vida este ano! Nossa, uma compulsão, uma embriaguez! Tudo bem, estou tentando não julgar nem me criticar. Devo ter forçado um pouco a barra, só isso...
Vi esse tipo de coisa acontecer muitas vezes quando fazia retiros. Ficávamos em silêncio de manhã até a hora do almoço. De repente, ondas de tagarelices e muita risada tomavam conta de quase todo mundo. Depois passava. À medida que o tempo ia passando, muitos se acostumavam com o silêncio e tudo ficava mais natural.
Estou nesse momento, começando... Esse Carnaval é meu retiro de Presente! E está só começando...
Bom, mas o que aconteceu nesse primeiro dia, AFINAL?
Percepção é a palavra. Percebi inúmeras coisas que não percebia normalmente. Poderia dizer zilhões de coisas, mas eu não estive tão presente assim. Imagino que com mais presença a percepção se abra ao infinito.
Mas estou no jardim de infância. Consegui perceber o meu corpo principalmente. O corpo no sofá, os pontos de mais contato, a pressão do corpo sobre as almofadas, a pressão das almofadas no corpo. O corpo no sol. O sol, o contato que também é contato, mas esse contato tão diferente dos raios de sol com o corpo. O suor, a gota que se forma e como que transborda e escorre escolhendo um caminho sem escolha, aquele que flui, que já está aberto, que é natural e fácil, que simplesmente acontece sem esforço, pela nuca, pela coluna, pela cintura... Dentro do corpo, a fome. O alimento, o sabor que fica mais acentuado quando se presta atenção nele. E diferenciado também, cada alimento na boca misturando-se lentamente, lentamente deixando seu sabor se agregar ao de um outro. Salgado, amargo, salgado-amargo... Temperaturas e texturas diferentes também. Tudo novo. O corpo na cadeira, o corpo deitado, o corpo andando. Os passos! Senti meus pés no chão e cada vez eles estavam mais em contato com o chão - ah, minha rolfista ia adorar isso! O vento. O vento no rosto. E o vento brinca, e muda de direção. E, de repente, vem por trás, sopra na nuca, depois de lado. Brinco com ele também mudo de direção só para ele me tocar em outro lugar. Uma infinidade de sensações novas. O líquido quente que desce e deixa o corpo, quente, quente, quente, o alívio. Ah! Tem de tudo, não é? É só prestar atenção. De pum a tesão. O Presente desvela, mas tem que ter coragem pra ver...
E percebi que dá para fazer as coisas normalmente com o Presente ao seu lado. Acho que é só uma questão de treino. O pedreiro veio. Saí pra comprar o material que faltava e fui buscar o pedreiro na hora que havíamos marcado. Ele veio, trabalhou, e eu e o Presente ali por perto. Eu me treinando a não fugir. Ficar, ficar no que é bom e no que incomoda, na beleza da vida e nas suas limitações também.
Em algum momento, já sozinha de novo, tive uma experiência, a mais significativa desse dia. Bom, uma das experiências mais significativas das últimas semanas ou dos últimos meses! A vida, de repente, fluiu. Ou: a vida de repente fluiu. Isso, sem vírgulas, sem paradas, sem bloqueio. Eu saí do caminho, liberei a passagem de algo. E a vida jorrou! Não havia um passado do qual eu me lembrava e no qual eu me reconhecia, que estivesse atrelado a um futuro de antemão congelado pelas coisas que eu queria. Não sei explicar. Era a minha vida, mas eu não estava lá. Eu estava em mim e eu não era nada do que tinha passado nem do que estava por vir. Estava de mãos dadas com o Presente nessa hora. Mais: a gente tinha se abraçado. Eu me misturei por alguns instantes com ele. Acho que consegui não pensar. Mergulhamos na piscina, só nós dois naquele abraço. O Presente e eu. A água, o frescor da água, o embalo da água, o aconchego. De repente, o Presente passou a ser a piscina. E eu fui mergulhando cada vez mais naquele abraço. Ele era a água, e eu me refrescava naquela água. Leveza. Indescritível a leveza! Não havia nem antes nem depois. Só era eu ali, o mundo naquele instante, a vida naquele momento, o presente ali me envolvendo...!
Bom, ele está aqui de novo. Vai me abduzir mais uma vez! Mas me devolve quando eu quero. Já vi que respeita as minhas escolhas. Não me assusta mais. Posso decidir quando quero estar com ele...