Esse Carnaval, feriado grande, começa sem plano algum. Acho que nunca aconteceu assim. Sempre tantos projetos, tudo planejado... O que houve!? Esqueci de pensar, não deu tempo, não percebi que estava chegando. Minhas filhas foram viajar, uma no começo da semana, a outra ontem, e só então me dei conta! Li absolutamente surpresa a manchete do jornal de hoje sobre a primeira noite de desfile das escolas de samba em São Paulo. Meu deus, estou em outro planeta! De repente, vejo-me aqui, nesse dia branco cheio de muita luz e absolutamente vazio (de expectativas). Lembro do poema do Ferreira Gullar:
A manhã apaga
As perguntas da noite
As coisas são claras
As coisas são sólidas
O mundo se explica
Só por existir
A memória dorme
O presente ri
Tenho que pular essa parte de que as coisas são sólidas (onde sempre tropeço)... mas o fato é que... o presente ri! E deve estar rindo de mim inclusive, se esborrachando de tanto rir, dobrado no chão numa gargalhada sonora no meio de um ataque de riso. Eu, sempre totalmente ignorante da sua presença, encontro com ele hoje, num estado de completa surpresa, com cara de tola, absurdada, como se fosse a primeira vez na minha vida! Caramba, e será que não é? Não lembrava dessa sua cara enigmática. Prazer, já tínhamos nos visto antes? Se nos vimos, já faz muito tempo.
Então estamos aqui, eu, o cachorro da Mar, o céu azul de brigadeiro, o sol, o verde que abraça essa casa e o presente... Estou um pouco sem graça. Penso na goteira que ainda não consertei e na pia que caiu. Pedreiros, material, acho que vou sair pra ver isso... O presente dá um assobio daqueles com os dedos na boca, que sempre tive vontade de aprender mas nunca consegui, e me chama de volta. Folheio o jornal, os cinemas, tento escolher um filme. Quem sabe no final da tarde, depois dos pedreiros? Então, ele vira as costas (o presente). Vai desistir de mim. Não é insistente, não se apega, é solto, vai fluindo. Peço pra ele voltar, e imediatamente estamos aqui de volta frente a frente. Muito lindo ele. Fico sem assunto, com cara paisagem, cada vez mais sem graça. Ele faz igual. Se rio, ri também. Jogo de espelhos? Não. Faço uma careta, e a dele é mais engraçada ainda. Tem personalidade.
Fico sem assunto de novo. É uma companhia nova e não sei o que dizer. Esse cara é absolutamente desconcertante.
Folheio um livro que deixei ao lado do computador - Meditação andando, de um monge budista vietnamita de nome engraçadinho, que deve se pronunciar Ti Ná Ram, e que ganhei da minha rolfista (e amiga) no final do tratamento. Segunda página:
Alguém perguntou a Buda:
"O que o senhor e seus discípulos praticam?".
Ele respondeu:
"Nós nos sentamos, nós andamos, nós comemos".
O inquiridor continuou:
"Mas, senhor, qualquer um se senta, anda e come".
Então, Buda disse:
"Quando nós sentamos, sabemos que estamos sentando. Quando nós andamos, sabemos que estamos andando. Quando nós comemos, sabemos que estamos comendo".
Humm... Isso deve ter sido ele (o presente) quem disse... Acho que vamos engatar uma conversa.
Percebo que estou irritada agora e começo a falar:
"Palavras muito bonitas! Você também é muito bonito e atraente, mas não entendo isso de viver o presente, de estar no aqui e no agora! As pessoas falam e falam sobre isso, repetem exaustivamente, acham lindo falar que é importante, mas... simplesmente não funciona! Serve para as crianças brincarem na areia da praia construindo castelos, poços, túneis..." Ai, que lembrança boa me invade! Tenho vontade de chorar. E choro. "Droga. Não sei por que estou chorando. Ah! É porque estou no passado, lamentando o que já se foi. E isso não pode, não é bom. TENHO que viver o presente. Então, está bem, estou aqui, sim senhor. Mostre-me como se faz isso!!!!!!!".
Ficamos em silêncio. Parece que ele só observa a minha raiva enquanto ela vai se esvaziando...
"Tempo, tempo, tempo. És um senhor tão bonito..."
Algum tempo se passou. Não sei o que aconteceu. Não sei o que vai acontecer. Agora o presente está mais perto de mim. Levantou, aproximou-se de mim e está pegando a minha mão neste momento. Acho que me convida para fazer algo. Não sei o que é. Levanto também. Vamos para algum lugar. Não sei que convite é esse, mas estou indo. Espero poder voltar para continuar contando esse encontro. Espero que ele não esteja me abduzindo - hahahaha!
De qualquer forma, o dia está lindo e o Carnaval - seja lá o que signifique isso este ano - está só começando!
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