31 de dez. de 2009

Jacas combinam mais com Reveillon do que champagne

Em algum lugar do mundo combinam!

Estava subindo uma ladeira, nessa ensolarada cidade de São Salvador - meu deus quanta luz !-, meio sem saber que caminho estava tomando, quando passo por um homem que carregava dois sacos pesado nas costas e arrisco perguntar se eu estava na direção certa. Ele responde que sim, mas não fica satisfeito em dizer apenas isso. Quer me mostrar o restante do caminho. Acelera o passo para me acompanhar. Quer ir até o final da ladeira pra mostrar como vou ter que seguir. Os sacos pesados nas costas. O suor escorre pelo rosto. Falo que eu posso perguntar mais à frente de novo, mas ele não fica satisfeito. Diz que está fácil subir. Sei... Eu diminuo o passo. E se ele enfartar debaixo daquele sol escaldante com todo aquele peso nas costas? Último dia do ano. Melhor não arriscar passar por uma dessas. Não sei se devo conversar ou deixá-lo concentrado no peso que tem que carregar. E se ele começar a falar muito e não respirar? É ridículo, mas não posso nem me oferecer para ajudá-lo!

Tento enxergar o que há nos sacos. Acho que é pra calcular o peso. Ele diz que são jacas. Não sei se jacas são pesada, mas acho que são. Lógico que são. Nitidamente jacas pesam muito! Ele esboça um gesto de colocar um dos sacos no chão. Eu me preparo para ficar aliviada. Mas qual o quê! Só ajeita as jacas nas costas e vamos em frente.

E, então, no meio do (meu) sufoco, ele ainda arranja forças pra rir da situação: "Vamos comer muita jaca no reveion. Daí já viu, né? É passar o resto do ano comendo jaca tombém."

Com essa chegamos ao fim da ladeira e ele me mostra por onde tenho que descer. Nós nos despedimos. Tudo bem que ultimamente tudo me emociona, mas essa foi de arrepiar. Ele me mostrou muito mais do que um mero caminho na cidade. Coisas a (re)pensar.

E, uau, me lembrou de caprichar no reveion - acho que era révéion! Pra vir um ano novo com todas as coisas boas desejadas!

Para amigos, família e todas as pessoas amadas: ótima passagem de ano! Que todos possam reconhecer e valorizar as conquistas, a jornada empreendida, os desafios enfrentados no ano que passou! Muita paz e muito amor!

E jacas para quem gostar!

20 de dez. de 2009


Os círculos estão girando. Meu amigo está se distanciando de mim. As pessoas não estão dando a mínima para o que eu falo - ato falho: eu tinha escrito "as pessoas não estou dando a mínima para o que eu falo"!


Ato falho nada. Falha nenhuma. Tudo explicado: penso que percebo unicamente coisas que estão fora de mim, mas o que está fora fala de mim tanto quanto um espelho reflete fielmente a minha imagem!

Bem que eu podia, então, estar mais atenta a mim no momento que algo se apresentasse para a minha percepção, seja ela sensorial, mental ou a soma disso tudo.

Como as nossas percepções são construídas? Essas percepções estão tão condicionadas, tão enrijecidas por padrões que se repetem há anos, que devíamos o tempo todo checar se elas são minimamente válidas!

Os círculos não estão girando. É só fixar o olhar num ponto bem central e vejo que realmente não estão.

Meu amigo também não está se distanciando e as pessoas estão dando importância ao que eu falo, sim. É só olhar bem e verei de onde vinham as percepções anteriores. Olhar bem, ouvir bem. Atenção correta e cada momento terá aquele frescor de novidade que tanto buscamos (fora de nós pra variar)!

“A manhã apaga

as perguntas da noite

as coisas são claras

o mundo se explica

só por existir

a memória dorme

o presente ri” Ferreira Gullar

20 de set. de 2009

Subjetividades

Quando percebo algo e falo a respeito disso para alguém, tenho a impressão de estar descrevendo uma realidade objetiva que observo.
"Vejo da minha janela uma pequena mata que cobre um morro não muito íngreme. Nesse final de inverno, as árvores estão um pouco secas e ainda não há flores. Os eucaliptos se destacam porque são muito altos. Encimando o morro há uma fileira de pinheiros de diversos tipos. Vejo ainda algumas palmeiras e várias paineiras."
Por mais fotográfica que seja a minha descrição, ela será sempre apenas uma descrição subjetiva de algo que eu observo.
Não é fácil aceitar isso (mais difícil ainda aceitar que nem sequer existe uma realidade objetiva a ser observada, mas isso são outros muitos quinhentos mais).

Qual é a utilidade prática disso na vida? Quando, num relacionamento com outra pessoa, compartilho e descrevo a realidade que vivencio na convivência com ela, estou descrevendo impressões subjetivas minhas. Não posso acreditar que esteja descrevendo uma realidade absoluta.
Por outro lado, quando a outra pessoa me fala da sua experiência, não posso me colocar na posição de concordar ou discordar da sua fala, como quem avalia se a sua descrição de uma realidade absoluta (que ambos observamos) está correta ou não. Ela está me contando sua experiência subjetiva, própria e particular, e isso é inquestionável.

O que fazer então? Primeiro, abertura e escuta. Então, em algum momento, será possível criar um significado em comum, que integre as nossas subjetividades, a percepção que eu tenho e a que o outro tem.

Um caminho para a paz e a compreensão.



Um vídeo para (entre outras tantas coisas) pensar nas tais percepções... Divertido e interessante, reune feras como Vincent Price e Tim Burton. E até Edgar Alan Poe!
Muito poético também!