7 de mar. de 2010

Uma estranha coragem

Já bem tarde da noite, debaixo de uma chuva fina, uma mulher sai andando sem rumo pelas ruas... enlouquecendo. Vai se soltando da vida sem morrer, a cada passo desistindo um pouco mais de tudo que a atormenta. A cada passo consegue desistir um pouco mais. Desistir, nesse caso, é uma vitória, sua única forma de lutar e de vencer.
Porque vinha de uma família de fortes e não encontrara a mesma força para lutar, buscou um caminho próprio. Restou-lhe a força de dar as costas para a vida, como se esta fosse um objeto desprezível.
Abrir mão era no seu caso uma vitória. Fora a única possibilidade de manter alguma integridade, de não se deixar aniquilar.
E não era, em absoluto, uma atitude passiva. Precisara de muita força para conseguir fazer isso. Cada passo que espalhava a água das poças na calçada desmanchava as imagens que a mesma água refletia - das lâmpadas dos postes, dos próprios passos, das nuvens, do luar... - e apagava lentamente as imagens de toda a vida.
Levar uma vida medíocre seria ainda mais devastador que tudo aquilo. Por mais doloroso que fosse, um ato de loucura pareceu a única forma de não se submeter. Lutava!

Imagem: Lucian Freud

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