2 de jun. de 2010

Daquilo que não se pode nomear

Quando um mal é tão grande e não se vive nada além da dor, quando não sobra nada em você que não esteja mergulhando em dor - dor dilacerando a pele por fora, corroendo a carne por dentro - e perde-se toda a lucidez, porque tudo o que se pode fazer é tentar não sucumbir, a dor, essa DOR, torna-se uma poderosa soberana em sua vida, fincando saltos altos pontudos sobre as suas costas, depois que lançou seu corpo e sua alma no chão e você sentiu o gosto e a secura da terra em sua boca que sangra.
E a Dor não lhe dá nem ao menos o direito de saber como é seu rosto. Gigantesca, não deixa que se distinga nada além de seu pesado manto escuro. Cruel e assustadora, chega a todo momento, não se sabe de onde, com que intensidade, nem deixa conhecer as armas que traz.
Ela tem um Algoz, que executa suas ordens com prazer. Ele é incrivelmente sagaz e bem treinado. Dissimula, se aproxima, parece seu protetor. Depois desfere golpes cruéis. Mas consegue ser tão ligeiro e sutil em seus movimentos que você não percebe que foi ele quem trouxe e usou as armas que a Dor escolheu usar.
Por vezes, você suspeita que tem que se afastar, que algo não vai bem ali com seu grande protetor, mas, então, ele puxa forte as correntes e prende seu corpo e sua alma. O corpo dele sobre o seu, as palavras dele sobre as suas, o tempo, os pensamentos, tudo que era seu desmorona. Mas você pensa que fazem amor e se entrega ainda mais.
Então, o sequestro é definitivo. E o medo, o desespero, a surpresa e o inesperado continuam impedindo que você veja seu cativeiro, as grades na janela.
O perigo aumenta, pois a Dor e seu Algoz fazem grandes aliados dentro de você mesmo - a esperança, o desejo. A esperança de se livrar daquilo acaba também se tornando sua inimiga, pois lança você nos braços fortes que se estendem ocultando os espinhos que embalam a sua dor. Você simplesmente não quer ver os espinhos, a esperança também cega, você apenas espera desesperadamente que a Dor desapareça.

Quando, depois de muito tempo, você talvez conseguir escapar, as sombras e a escuridão serão tão densas que tomarão conta de todas as suas memórias e não permitirão que você saiba jamais. Jamais você saberá qualquer coisa além do fato de que houve Dor. Então, você irá se misturar com a Dor, você será a própria Dor, você será o sujeito que agoniza e a Dor que faz agonizar. Só existirá você e a Dor...
E, portanto, a culpa será toda sua.

A única proteção torna-se, então, saber que não se pode ir para aquele mesmo lugar de novo. Só há a certeza de não ir mais para lá, simplesmente porque está além da capacidade humana suportar mais uma vez uma Dor tão imensa e tão assustadoramente conhecida!

O problema é que para evitar tão grande perigo, não se vai a lugar nenhum mais, nunca mais.

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