Não gosto de inverno de jeito nenhum. Deve ser resultado de ter crescido entre o calor seco do cerrado e o sol quase delirante do nordeste. Que se vai fazer? Não ter lembranças antigas de cobertores, lareiras e sopas, de ir para a escola sob camadas e camadas de casacos e voltar da rua correndo para o calor da casa dificulta que se identifique essas coisas como algo prazeroso.
Mas o assunto não é exatamente este. Queria escrever do que andei lendo e pensando sobre o tempo cíclico.
Que salto foi esse!? Sem nenhum compromisso com as precisões do debate filosófico, simplesmente veio o desejo, nestes dias cinzas de inverno, de sacudir a noção que temos do tempo e dos acontecimentos que nele transcorrem.
Porque é fato que a humanidade vive hoje muito mais mergulhada numa noção de tempo linear – os acontecimentos se sucedendo como numa reta com começo, meio e fim – e que perdeu a noção dos ritmos, dos recomeços, dos ciclos e de que as experiências transcorrem, na verdade, desenhando uma forma circular.
Quase já não existem mais ritos, festas anuais, cerimônias e, apartados da natureza, nem sequer fazemos contato com aquilo de tão evidente que nos carrega – os ciclos naturais, o dia e a noite, as fases da lua, as marés, as estações do ano.
Viva as conquistas, as metas, as finalidades, noções que nasceram do desenvolvimento da consciência da humanidade. Não se trata aqui daquele melindre nostálgico e irritadiço de desprezar e criticar o que se tem nos dias de hoje. Se bem que se trate de um pensamento fortemente enraizado na ideia bíblica de uma criação de mundo, que caminha, depois, para um momento final, tem lá o seu lugar toda essa percepção linear do tempo.
Mas muito nos beneficia, sem dúvida, ter presente também os ciclos, os retornos e os recomeços. Por quê?
A linearidade nos pressiona. Rumamos para o fim ou para os fins, sempre. Estamos sempre indo em direção ao estabelecimento determinado e determinístico das coisas. Temos a ilusão de que somos isso ou aquilo, fruto e resultado final das experiências vividas. Nossos relacionamentos, profissão, habilidades também são construídos e determinados da mesma forma. Uma experiência caminha para sua definição, quando, então, poderemos rotulá-la de boa ou má, a sentença final.
Perdemos a noção de travessia, de passagem e da espera. E dos eternos retornos ao começo. Não, não somos isto ou aquilo. Somos algo temporariamente, fruto de circunstâncias e determinados contextos, circunstâncias e contextos estes em constante (e cíclica) transformação!
Podemos ser vítimas hoje e algozes amanhã, podemos reunir para depois dispersar, subimos e descemos, ganhamos e perdemos, erramos e acertamos. Não adianta fixar. A vida flui.
O tempo cíclico nos ensina a espera e nos ajuda a resgatar sentimentos, como amor, perdão e compaixão. Não invejamos os outros nem nos vangloriamos de nossas próprias conquistas. É tudo uma questão de tempo. Podemos aprender que não é possível nos agarrar às nossas conquistas, mas também não nos desesperamos com os momentos difíceis. A roda gira, as ondas vão e vem. Não precisamos fazer justiça em relação ao que nos fazem os outros, nem nos culpamos por nossos próprios equívocos. São aprendizados que se apresentam. Estão de passagem, como nós.
Há que se entender que não se trata de passivamente contemplar a vida passar. Atuamos e agimos. Mas também contemplamos, meditamos e refletimos. Felicidade é o que sempre queremos, mas ela não é resultado final de um caminho percorrido. É processo. Felicidade se torna fluir, que não conflita com os ritmos e sistemas em que estamos inseridos. É ativa e entregue ao mesmo tempo, como sobre uma onda, o impulso vem de conhecer e saber se relacionar com um movimento muito maior do que nós mesmos!
Sempre que um pensamento em mim inventa de se revoltar contra o esse inverno frio, outro contemporiza: “É a natureza ensinando sobre os ciclos”. Hora de se recolher e buscar calor interno. A Terra, do lado de cá do Equador, faz isso.

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